E agora?

Quem é que não tem medo de morrer? Eu tenho.

Sempre fui uma pessoa saudável, regrada na alimentação e cuidadosa com a minha imagem. Percebo agora que não foi o suficiente para não ser apanhada na curva, mas acreditei que estava a fazer tudo bem.

Comecei a sentir uma dor no peito, incomodava-me quando tocava embora não acontecesse todos os dias, percebem? Nuns dias estava mais sensível, noutros nem me lembrava que aquela sensação existia. Relacionei-a com “aqueles dias das mulheres” ou com uma qualquer outra questão hormonal. Nunca pensei que fosse cancro. Nunca pensamos que nos vai atingir, é uma “coisa dos outros” e que nos passa ao lado. Depois dos exames, não compareci às consultas marcadas, não tinha tempo, estava cheia de trabalho, sempre a correr de um lado para o outro, sempre apressada. Esqueci-me de mim e acabei por ser abalroada pela doença. Finalmente fui à consulta com o ginecologista e recebi a sentença: carcinoma ductal invasivo. Agora, aguardo a consulta com o oncologista para decidirmos qual será a abordagem ao “invasor”. No entanto, o ginecologista falou-me sobre qual poderá ser a abordagem clínica: quimioterapia seguida de cirurgia para retirar apenas o tumor ou a mastectomia. Estou ansiosa, mas aguardo pela próxima consulta.

Basta-me ser a única pessoa a sofrer e decidi que não vou contar que tenho cancro à minha família nem aos amigos mais próximos. Não quero causar sofrimento, basta-me o meu. Poderia deixar a minha vida em suspenso durante uns meses para me dedicar ao tratamento, mas quero e preciso de continuar a trabalhar. Será assim pelo menos até à cirurgia, porque nessa altura vou precisar de apoio e de justificar a minha ausência.

Não quero perder a minha vida, a minha filha, o meu marido, não me quero perder. Já chorei muito, estou assustada, tenho medo, preciso de momentos a sós para respirar fundo e avançar. Não vou desistir, não baixarei os braços.

Sou uma mulher com cancro da mama, e esta nova realidade custa muito, mas é a minha e nem por isso me torna mais frágil ou menor. Esta batalha escolheu-me e eu sou uma lutadora. Este “invasor” tem os dias contados.

 

M.

 

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