Miserável.

Posso sentir-me miserável, cansada, doente, sofrida, magoada. E tenho direito a sentir-me assim, é legítimo depois de tudo o que fiz pelos outros e pela forma como lutei contra a doença. No entanto, sei, e tenho sempre presente, que há sempre alguém em piores condições do que eu. Logo, tenho que ser condescendente com a vida e perdoar-lhe a armadilha que me trouxe. Preciso de fazer as pazes com a vida para conseguir recuperar e sair do caos.

Em relação ao meu casamento e à minha vida familiar, não tenho respostas nem soluções.

Viver para sempre?

Não, viver para sempre não é uma opção, não tenho essa escolha. Gostava, apenas, de viver bem enquanto cá estou. E o que é para mim viver bem? Estar tranquila com o corpo que tenho e com a pessoa que sou, viver em paz com todos os que me rodeiam, ter uma família feliz e segura, uma casa bonita onde sinta conforto e ter a capacidade de sorrir sempre, mesmo no meio da tempestade.

Fácil? Nada é fácil. Admito que nunca passei muitas dificuldades na vida e que o cancro trouxe exactamente uma lição de vida. Consigo avaliar o cancro e tentar ver um lado positivo: dar mais valor a mim própria e à minha vida. Sei, agora, que a vida pode ir num sopro e, se há coisa que eu não quero, é perder a minha vida.

Cancro

O cancro dilacerou-me, tirou-me anos de vida saudáveis em poucos meses. Interrompeu a minha vida, as minhas rotinas, abalroou-me no caminho certo que percorria. Sempre achei que seria possível enfrentá-lo e derrota-lo sem deixar mazelas grandes. Sei, agora, que não foi possível. Porquê? Enfrentei-o, derrotei-o, mas as mazelas são grandes e profundas. A nível físico, sei que a recuperação poderá ser lenta e que o meu corpo nunca mais será o mesmo. E a nível emocional? O que é que vai acontecer?

Estou focada em recuperar tudo, contudo as dúvidas são muitas e, às vezes, perco as forças e a coragem.

Recuperação #5

Sinto algumas dores que só ficam mais suaves com a medicação. Não queria abusar dos analgésicos, mas preciso de me sentir confortável.

Também não tem sido tarefa fácil vestir-me e despir-me sozinha, ou fazer coisas simples como pegar num saco, na minha mala ou tomar banho. Se estiver por aí alguém a ler estes meus desabafos, e quiser partilhar os seus, sinta-se à vontade para o fazer.

 

Amar

Há tanto por dizer sobre o amor e todos nós poderemos ter opiniões diferentes.

Para mim, e entre muitas outras definições, amar é libertar. Como tal, por mais que me custe, se ele quiser libertar-se de tudo o que nos une, poderá fazê-lo.

 

Recuperação #4

Ainda a recuperação, que sei que será lenta, e este sentimento de impotência em relação à minha vida.

Sinto-me triste por o meu casamento ter chegado ao estado a que chegou. Eu fui a causadora deste problema, reconheço-o. No entanto, faria tudo de forma igual para proteger a minha família. Sofri bastante quando descobri o cancro, durante a quimio e antes da cirurgia. Hoje continuo a sofrer, mas sem a sensação de ter uma faca no pescoço.

Quero acreditar que tudo se vai resolver.