As aparências iludem

Cortei o cabelo e optei por um corte bem curto. Decidi e avancei. Claro que o fiz em segurança e a confiar na arte – e no amor – de um grande amigo.

A reacções têm sido positivas, embora eu saiba que todos estranharam. É esquisito, eu percebo. Tinha um cabelo loiro, comprido e bonito. Agora, continuo a ter o cabelo loiro e bonito, mas curtinho. “É só cabelo”, como alguém disse. Embora seja apenas cabelo, e eu sei que sim, não deixa de influenciar a minha imagem e de mexer com a minha auto-estima. Mas farei tudo, tudo mesmo, para vencer esta batalha.

Às vezes, quando tenho medo, tento ser racional e penso: “O cancro tem cura. Há pessoas que sobrevivem e outras que (con)vivem durante muitos anos com a doença. Calma. Respira. O meu cancro pode ser vencido.”

Gosto de trabalhar e tenho usado o trabalho como bengala, embora haja dias muito complicados. Sinto-me cansada muitas vezes e os enjoos têm sido muitos. Tenho que conversar com o médico e perceber se há mais alguma coisa que possa tomar aliviar. Ainda não notei que o cabelo esteja a cair, mas as unhas estão, sem dúvida, mais fracas. Aos sintomas só tenho a acrescentar as dores de cabeça, mas nem sei se serão efeito da quimio ou coincidência.

Um post com muita informação.

M.

 

 

Medo

Penso muito no que me está a acontecer. Estava tão longe desta realidade, longe do que seria a vida de uma pessoa doente.

Tento manter-me alerta e sorrio para enfrentar os dias, mas há momentos em que o medo impera.

Sei que tenho que ser forte.

mariana 2

 

 

A 1ª sessão de quimioterapia

Qual o papel da quimioterapia no tratamento do cancro da mama?

A quimioterapia consiste na utilização de fármacos para tentar eliminar as células tumorais que possam existir no organismo mesmo que não tenham sido detectadas com os exames que utilizamos para estadiamento. Regra geral, a quimioterapia para o cancro da mama é constituída por uma associação de fármacos. Os fármacos podem ser administrados oralmente, sob a forma de comprimidos, ou através de uma injecção intravenosa (i.v.), na veia. Em qualquer das situações, os fármacos entram na corrente sanguínea e circulam por todo o organismo – terapêutica sistémica. A maioria das pessoas com cancro da mama faz quimioterapia em regime de ambulatório (no hospital, no consultório médico ou em casa), ou seja, não ficam internadas no hospital.

 

Quais os principais efeitos secundários da quimioterapia?

Tal como a radiação, a quimioterapia pode afectar tanto as células normais como as células tumorais. Regra geral, os efeitos secundários da quimioterapia dependem dos fármacos utilizados e das doses administradas. A quimioterapia afecta, essencialmente, as células que se dividem rapidamente, como sejam:  

Células do sangue: estas são as células do nosso organismo que ajudam a “combater” as infecções, que ajudam o sangue a coagular e que transportam oxigénio a todas as partes do organismo. Quando as células do sangue são afectadas, havendo diminuição do seu número total em circulação, poderá ter maior probabilidade de sofrer infecções, de fazer “nódoas-negras” (hematomas) ou sangrar facilmente podendo, ainda, sentir maior fraqueza e cansaço.

Células dos cabelos/pêlos: a quimioterapia pode provocar a queda do cabelo e pêlos do corpo; no entanto, este efeito é reversível e o cabelo volta a crescer, embora o cabelo novo possa apresentar cor e “textura” diferentes.

Células do aparelho digestivo: a quimioterapia pode causar falta de apetite, náuseas, vómitos, diarreia e feridas na boca e/ou lábios; muitos destes efeitos secundários podem ser controlados com a administração de medicamentos específicos. Alguns fármacos anti-cancerígenos podem, ainda, afectar os ovários. Se os ovários deixarem de produzir estrogénios – hormona feminina -, poderá haver sintomas de menopausa, tal como afrontamentos e secura vaginal; os períodos menstruais podem tornar-se irregulares ou mesmo parar podendo, ainda, ficar infértil (incapaz de engravidar). Se tiver idade igual ou superior a 35 anos, é provável que a infertilidade seja permanente; por outro lado, se permanecer fértil durante a quimioterapia, a gravidez é possível. Como não são conhecidos os efeitos secundários da quimioterapia no feto, antes de iniciar o tratamento deverá falar com o médico, relativamente à utilização de métodos contraceptivos eficazes. Se considerar a hipótese de uma gravidez após os tratamentos, fale com o seu médico pois actualmente existem formas de poupar os ovários aos efeitos da quimioterapia. Pode ainda pensar na utilização de congelação de óvulos para que estes possam ser usados mais tarde. Raramente surgem efeitos secundários de longa duração, ou seja, sentidos a longo prazo. Ainda assim, verificaram-se casos em que o coração se torna mais fraco. Em pessoas que receberam quimioterapia existe, também, a possibilidade de surgirem cancros secundários, como a leucemia, ou seja, um cancro nas células do sangue.

em Portal de Oncologia Português

 

A primeira sessão de quimio já está feita. O processo em si correu bem e tive uma excelente companhia a meu lado. Obrigada, meu bom amigo. Dos efeitos secundários, até agora, tenho sentido secura na boa, embora ligeira, náuseas e vómitos. Estes sim, têm sido intensos e difíceis de controlar. Os comprimidos para ajudar o estômago ainda não estão a fazer o efeito desejado. Não tem sido fácil esconder a verdade e manter-me de cabeça erguida é, ainda, mais complicado. Às vezes, queria ceder e partilhar com o meu amor o que está a acontecer. Só que não posso, não é justo para ele e eu sei que vou aguentar esta caminhada. Não estou completamente sozinha. A vontade de viver está sempre presente, não baixarei os braços.

M.

E agora?

Quem é que não tem medo de morrer? Eu tenho.

Sempre fui uma pessoa saudável, regrada na alimentação e cuidadosa com a minha imagem. Percebo agora que não foi o suficiente para não ser apanhada na curva, mas acreditei que estava a fazer tudo bem.

Comecei a sentir uma dor no peito, incomodava-me quando tocava embora não acontecesse todos os dias, percebem? Nuns dias estava mais sensível, noutros nem me lembrava que aquela sensação existia. Relacionei-a com “aqueles dias das mulheres” ou com uma qualquer outra questão hormonal. Nunca pensei que fosse cancro. Nunca pensamos que nos vai atingir, é uma “coisa dos outros” e que nos passa ao lado. Depois dos exames, não compareci às consultas marcadas, não tinha tempo, estava cheia de trabalho, sempre a correr de um lado para o outro, sempre apressada. Esqueci-me de mim e acabei por ser abalroada pela doença. Finalmente fui à consulta com o ginecologista e recebi a sentença: carcinoma ductal invasivo. Agora, aguardo a consulta com o oncologista para decidirmos qual será a abordagem ao “invasor”. No entanto, o ginecologista falou-me sobre qual poderá ser a abordagem clínica: quimioterapia seguida de cirurgia para retirar apenas o tumor ou a mastectomia. Estou ansiosa, mas aguardo pela próxima consulta.

Basta-me ser a única pessoa a sofrer e decidi que não vou contar que tenho cancro à minha família nem aos amigos mais próximos. Não quero causar sofrimento, basta-me o meu. Poderia deixar a minha vida em suspenso durante uns meses para me dedicar ao tratamento, mas quero e preciso de continuar a trabalhar. Será assim pelo menos até à cirurgia, porque nessa altura vou precisar de apoio e de justificar a minha ausência.

Não quero perder a minha vida, a minha filha, o meu marido, não me quero perder. Já chorei muito, estou assustada, tenho medo, preciso de momentos a sós para respirar fundo e avançar. Não vou desistir, não baixarei os braços.

Sou uma mulher com cancro da mama, e esta nova realidade custa muito, mas é a minha e nem por isso me torna mais frágil ou menor. Esta batalha escolheu-me e eu sou uma lutadora. Este “invasor” tem os dias contados.

 

M.